-

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Quase conto sobre o amor


Ao meu amor partido que partiu e aqui comigo deixou lembranças doces e vivas e internas, como se amor fosse uma coisa nossa, não é, e jamais foi meu bem, amor é aquilo que nos pertence, mas que não pode ser nosso, amor é só do amor, e dura apenas enquanto durar amar.

Foi pensando que amar era coisa fácil, que eu comecei a colecionar cacos. Entre os mais belos guardei você nalgum deles (dentre outros tantos não menos belos). Seu rosto reluzia como uma vidraça limpa e eu me lembro muito bem como você olhava vitrines como quem olha dentro de si, parava e ali reparava cada uma, reparava cada parte de si no brilho delas, e só assim podia tocar-me, é que as vitrines é onde me escondia e onde escondeu a todos os que amou, você olhava vitrines como quem guarda as pessoas dentro delas, e só as toca até o vidro ainda brilhante, ainda limpo. E foi assim, que me tocou. Tocaste de um jeito singelo e calmo e manso, me olhou dentro dos olhos de um jeito profundo e deixou vazar algumas lágrimas como se escondesse algum segredo nelas. E ora, escondeste bem, meu bem. As pistas e passos que aqui ficaram não mais me conduzem à aquele toque e aquele olhar, mas me mostram dentro de mim um caminho vago que só eu sei percorrer.

O fim do amor é algo digno de brindes eternos e saudosos dignos das palmas mais representativas que podes receber. E partir não é simplesmente dar as costas e sair, é mais que isso, é deixar de si tudo o que deve ser deixado, e acredite, é tarefa árdua deixar um pouco de si num canto qualquer onde nem sequer sabes se vai saber encontrar novamente o caminho, e ainda é levar aquela parte pesada que mal podes carregar com os ombros já cansados e pesados e baleados. O mais difícil do amor é deixar de amar, esse sim é o impossível do amor. Improvável.

Amar é aprender partir com classe e deixar o outro partir como quem é expecta-dor de sua pobre e nobre dor. Deixar ir e saber a dor é o mínimo necessário para entrar em contato consigo através somente de si. E entra, deixe entrar, afinal é saboroso equilibrar energias e vê-las estáveis como nunca antes imaginaste. O sabor de sofrer tem um gosto bonito de se conhecer. E é assim, só assim, quando deixas partir e partes também que percebes que amar é muito além do que dura o amor, aquilo que sobra depois de tudo que partiu e ficou é ainda o amor, do jeito que ele devia ser antes mesmo de ter sido tudo isso.

Só assim que o sabor dos nossos sonhos, é enfim o sabor nosso, e não vai fugir, ficou guardado aqui com algum outro gosto, real.


Basílio Ferreira Filho

P.S.: uma face máscula de Fernanda Tavares

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sem norte


Loucura e desorientação,

naquele cemitério de ilusões

encruzilhadas na mente morta,

pálida de confusão.

Sem cheiro, sem cor.

Com aquele gosto asco,

medo e nojo e dor.

Mãos trêmulas e frias e suadas

marcadas com sangue.

Sangue que veio da alma

escorreu do vazio que ela escondia de si.

Ela segurava aquele livro

como se estivesse dentro dele, presa ali

em algum lugar onde ela certamente não estava.

Seu corpo não mais falava,

era mudo e rouco

ela não tinha como gritar aquela angústia aprisionada em lugar nenhum.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Vago


A doce dose amarela de sangue escorrido, pálido e coalho

Feito versos perdidos

Lembranças brancas

Naquele azul que borbulhava cheiro de dor.

Abaixo o rosto e escondo-me em mim

Escondo-me de ti.

Tudo que já não pertence e ainda é meu.

Os furos da parede concreta levam ao teu silencio já esquecido

Como num naco de alma

Uma lua que ainda brilha no teu peito

Por trás do gosto nobre do corpo adormecido.

Como se os mortos falassem do que nunca sentiram!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sobre meu quase eu


Eu escrevo sobre o vazio.

Sobre o nada que sempre fui

E sobre a coisa nenhuma que preservo em mim.

Escrevo o que não sou.

Desato meus nós com palavras soltas

Mais vagas que eu mesma.

Desabafo meu silêncio

Num berro sem voz, sem cor.


Eu escrevo sobre a falta de eu em mim

Jogada ao vento nessas palavras sem sentido

Escrevo sobre meu anti eu

Sobre meu ego perdido no eco partido.

Eu mostro tudo o que não sou

Num retrato meu, que não me vi

Atiro minha parte guardada

Em qualquer gaveta cardíaca trancada, sem porta de entrada.


Eu escrevo sobre o tempo,

Maldito!

Aquele que passou e levou consigo uma parte do que era meu

Uma parte que era eu mesma.

Um brinde a minha possessão, só minha.

Duas doses com sal e limão.

Eu já não tenho nada mais a escrever

Sobre meu quase eu.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A solidão das putas


Escrevo às putas abandonadas na margem da solidão,

Desfaleço-me toda por inteiro

Descrevo em mim o vazio dos seus corações

Limpo o corpo para o cliente derradeiro.

¨

¨

Vem!

Não vê eu ainda te espero?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fica só entre nós


Antes do entardecer
Não mais contarei o segredo daquele silêncio
Irei combinar nossos versos
Degustando seu cheiro em minhas palavras
Prever-te em meu rebojo
Gritar, provocando-lhe.
Apóstrofe à poesia.

Soube achar que não mais valia pena parar essa dança
Audaciosa, me ensinou passos internos e eternos.
Sua couraça que sensivelmente me fazia farejar sintonia
Pairou ideias que se perderam em multidões que carrega dentro de si.

O fogo rasgado de suas palavras me sussurrava
Intensamente?
Sim.
E só seu peito concretiza essa verdade. Somente só.
Na intensidade que explode a menina dos olhos
Couberam-me livros e dicionários de entendimento imediato
Em louca arritmia que banalizava a moral
Socorrida em verdadeiras conversas embriagadas
Morando o riso. O risco. Aliso. Belisco. Enrosco.

A boneca do abraço leve
Num sorriso
Apenas,
Acaçapava-me.
E só uma filha da puta sabe dar tanto quanto dizer
Vá se fuder!

Portanto,
Faremos da madrugada o gesto intimo da cantoria
Tragar tudo que seja vida
Beber tudo que seja prazer
Comer metades certas de pedaços inteiros
Daquilo tudo que considero errado.

E não serei o garoto parnasiano
Prefiro ser pachola
O Malandro da cidade média
A bisca safada que descontrola o equilíbrio
O irmão do tesão, da bossa nova e das agonias.
O leito do silêncio e da fala que acarinha seu mimo
Quantas vezes te couber no céu.

Cabe até sua estrela tagarela

Cabe seu peito acelerado

Cabem suas mãos e pés frios

Cabem seus olhos de reluz
E você sente, degusta e cheira até ouvir
O tecido pulsante utilizado no quadro colorido de uma homenagem.

Perdeu-se novamente no silêncio deste segredo?
Não mais secreto…
Por opção,
Talvez…
A chance de ouvir seu grito me faz achar
Que chegou a hora de encerrar a composição deste diálogo

E deduzir que minhas lágrimas,
Forjou palavras para o indescritível
Andou dizendo que a vaca branca do cabelo oleoso
Mirou o sorriso meigo na direção do homem pedra…
Logo logo sua distração se concentrou
E ele,
No caso eu, se derreteu.

Por Bibi Serafim

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Nos traz dias


O rasgo desses versos vai de encontro à nostalgia

Dura e seca.

Daquelas que provocam um corte lento e profundo

Com sangue doce coalho.

Em meu vômito talhado de dor

Deixei sair esse pedaço da falta quase sem cor

E entre o pássaro que voou e o vento que tocou

Fico aqui parada como aquele velho sábio que guarda em si, seus segredos

Preservando seu mistério em uma lágrima salgada, sem gosto de ácido presente.

Guardo teu cheiro solto na cor carne do meu corpo

Avisto teu silêncio esmiuçado no reflexo dos meus olhos

Deixo trancado dentro de mim, esse laço de fita invisível

Que só eu sei o brilho de saudade que reluz no escuro calmo desse dia frio de meados do tempo passado.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ao tango quente e deslizante da madrugada sombria


Rasgo minha carne com o caco de vidro afiado,

Deixo o sangue vermelho vivo escorrer por entre minhas mãos

Escrevo meus versos pintados a sangue e cacos

Quero gravar-me neles

Deixar que eles façam de mim o que só eles são

Que eu os seja e me deixe quieta por esse segundo.

Quero pintar-me toda nas minhas cores vivas,

Borrar-me em cada tom escuro e forte

Deixar que meu ser abstrato se concretize em qualquer tela

Que algum canto do meu eu se liberte numa fotografia estática

Para só então ler tudo o que fiz de mim

Nesse tango embriagado de solidão.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O prazer é todo meu


Entre minhas tantas caras

Meu rosto, meu esconderijo

Entre minhas tantas almas

Meu silencio, meu segredo

Entre meus tantos passos

Meu mistério, meu medo.


Sou tudo o que mudei

Tudo que deixei

Tudo que nem sei.

De tanto me ser, não sei mais.

Sei que senti, degustei-me sem fim.

Sei que não sei de mim.


Fui parte do que eu vivi

Mergulhei no que eu senti

Isso que estou parindo com palavras

É meu, mas não sou eu.

Meu retrato tem meu rosto

Escondido nele, meu esboço.

Não sei o que faço, nem onde estou.

Sei que vou.


Vou lendo meus vestígios,

Meus restos, minhas pistas.

Leio o que deixei, mudei.

Fiz de mim o que não sei

O que eu sabia fazer, eu só senti.

Penetrei-me dentro do meu ser

Releio-me e fico por aqui

Não fui eu que me escrevi.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Versos do espelho


Risco.

Rabisco.

Piso.

Entre o medo de ir

E a vontade de ficar.

Entre o desejo de seguir

E o receio de parar.


Aquele pedaço do cheiro da dor,

Aquele vento distante e próximo do amor.


Na areia de encontro ao mar

Teu olhar.

Na madrugada fria e doce

Esse sorriso.


Risco.


Arriscar um desenho novo,

Colorido das cores turvas

Quase embaçadas,

Embriagadas.


Rabisco.


Borro o papel com palavras soltas

Soldo nele os meus pedaços.

Laços feitos daqueles traços,

Trapos.


Piso.


Coloco os pés dentro do coração

Sapateio até sangrar.

Deixo escorrer o sangue vermelho

Pra escrever esses versos no espelho.

domingo, 26 de julho de 2009

Dedicatória a uma puta amarga


No meio dos rios desse inferno

dessa poeira ácida, dessa sujeira ártica,

nesse espasmo flácido se colore o amargo púrpura

que recheia esse bordel virulento, cheio de ratos mortos.

Penetro o balcão pra encontrar qualquer bebida acre

pra escorrer o doce que se solta desse líquido forte

E de súbito vejo dançar na luz suja a frígida puta sobre um palco mal arranjado numa falsa tentativa de sedução

Não existe espaço para o lirismo nesse lugar

nem mesmo para o lirismo bêbado barato e cheio de ratos a mordiscar os lados

Só existe espaço para a mulher murcha, quase nua no palco de caibros frágeis, tão igual à sua platéia de animais gordos, todos há muito tempo broxados, salivando por qualquer sombra de vigor sem nem saber

rondando feito lobos a presa que mais do que tudo é carne

carne que nem triste é porque já não sangra

Por trás da pele transparente se vê os ossos, matéria de ferro, aço, parede nua, concreto, chão de terra batida,

esquece o fogo, a carne nunca se pareceu tanto com o metal frio da máquina.

E eu a observar do balcão a mais triste cena de todos os tempos, a ceia dos que não têm fome e nem sequer sabem disso

Eu mergulho, só mais um porre qualquer

Mas espera!

Ainda tem sombra de luxúria entre esse tantos trapos

Um pedaço de seda desgastado e ainda brilhante amarrado no tornozelo esquerdo e que ninguém presta atenção

Ainda existe um ritmo fraco de música, um brilho apagado, nesse inverno de vermes paralíticos e mudos, ainda existe sangue a ser bebido

E a puta amarga se senta ao final do ato, na beira do palco numa insólita espera por qualquer coisa dura o bastante que a faça sangrar de novo.

Por Maria Cecìlia Lara

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Tosse sem fim


Eu tossi cada pedaço engasgado de mim

numa tosse doída e quase sem fim.

Eu arranquei com minhas próprias mãos

aquele oco que palpitava dentro do coração.


Não foi suficiente.

Continuo mancando da perna direita

como se nada sustentasse

essas cores escuras dentro da pele.


Com as mãos trêmulas eu deslizo

nas cores cintilantes

e me entrego a tudo que nego

de forma marcante.


Conheci as partes mais escondidas que possuo

Viajei por elas por longos dias.

Apalpei-as como quem apalpa a si

Olhando de fora como se jamais estivesse tão dentro.


Permaneci ali.

No silêncio obscuro

Que fazia um barulho claro dentro do peito.

Sentei e ali fiquei.


Talvez eu devesse ter ido embora

Antes de saber de tudo que hoje eu sei.

Talvez não.

Eu sei de mim, como não sabes de ti.


Naquele pedaço que tossi,

Eu me vi em pedaços toda inteira

Quanta bobeira!

Segurei a tosse com as mesmas mãos que ainda tremiam.


Num pulo de quase um segundo

Pensei novamente em partir

Descobri que depois de já estar aqui

Difícil é sair de si.


Essa vida interior tão guardada

Tão inexplorada

Atrai aqueles que têm medo de si

E que tem medo de deixar-se.


Eu fico ali sentada

Como aquele que é expectador de si

Olho para dentro e novamente me apalpo

E me arranco de mim.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dança a dois


Sobre a sinceridade

E toda sua dança deslizante

Que envolve corpos e almas

No silêncio escuro.


Sobre o peito aberto

Perto da carne e o sangue

Aquela transparência estonteante,

Vermelho vivo, marcante.


Desliza,

Vira e delira.


Sobre a poesia

Com o papel borrado

E os versos trêmulos

Quase engasgados.


Sobre a mudez do movimento

E o balanço da voz

Esmiuçado na embriaguez da noite

E no vento da manhã, ainda preta e branca


Acontece,

Aquece e estremece.


Sobre o carinho

Disfarçado entre o desejo e medo

Pulsações elétricas debaixo das viagens mudas

Como o cheiro do orvalho fresco.


Sobre tudo o que envolve

Olhares, peles, sorrisos,

Entre abraços distantes

Da música mutante, amante.


Cala,

Repara e exala.


Sobre a intensidade

Que em meio à novidade

Faz do prazer o ritmo da brisa

Como o pássaro que voa e leva nas asas tudo que sabe.


Sobre o silêncio

Que revela o partir

Antes de entrar e sentar, lembre-se da metade miúda partida

Que partiu.


sábado, 18 de julho de 2009

Sinapse cardíaca


Nesse peso de folha virada o limite do tempo

Tempo que vai e leva

Quase que arranca da gente o que é nosso.

Aquilo que a gente escuta de fora

É nosso silencio de dentro.

E o silencio de fora

É aquele barulho alto guardado lá dentro.

Foi escutando aquela cor da brisa

E aquele cheiro do vento

Que eu mergulhei nesse pedaço de mim


Tem tanta saudade naquele cheiro

E tanto desejo naquela cor

Uma sinapse cardíaca que nunca nos deixa a sós

Nesse leito vazio, que tem o eco oco do nada repleto de si.

Mergulhar como o peixe mais sincero dos mares

E como o pássaro mais seguro dos ares

Feito aquele que arranca de si a coragem que nunca não teve

E joga-se no mundo como só e único.

Triste e sozinho, com fome de vida pelos mares e ares.

Feito aquele que nasceu dentro de si e ficou por ali

E não sabe da beleza desse abraço nos mergulhos profundos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Aquele olhar


Aquele olhar que muito viajou de forma meiga e doce antes de fixar-se ali.

Fixou-se calmamente, observando cada pedaço vago de si.

Absorveu tudo que havia por dentro e por fora e depois guardou num canto oco.

Canto mudo que gritava o nada de forma visceralmente bela.

Naquele momento todo seu carinho e delicadeza já eram parte de sua mudez berrada.

Arrancou de si um borro de sangue ainda cheirando a sua doçura singela e pintou seus lábios de dor.

Num sorriso eterno deixou escapar o cheiro dessa novidade mórbida.

Cheiro de alma sempre dançante nas valsas e tangos noturnos.

Aquele olhar permaneceu fixo no canto de voz que cheira todos os seus sorrisos.

Escapou de si aquele peso que tem a leve sensação de melodia cativante.

Escapou a beleza daquele carisma que envolve olhares alheios.

Os lábios ainda estavam envolvidos na dança muda.

O borro de sangue pintou a valsa da noite com a própria alma.

Tudo o que havia absorvido por dentro e por fora já eram o nada que jamais arrancara de si.

Sobrava ainda sua doçura e seu carinho espalhados no canto de cada tango.

Entre a troca de olhares tudo permanece fixo depois daquele misterioso ponto móvel.

domingo, 28 de junho de 2009

Cochilo de domingo

Eu quero olhar da janela e ver no horizonte aquilo que há tempos já não é mais meu presente. Quero ver entre a as nuvens e o mar aquele gosto de inocência que não mais sei como é. Saborear cata gota de mim que deixei por onde nem sei se passei. Quero sentir o gosto dos almoços de domingo na casa da vovó, onde eu brincava de forma sincera, naquela época eu nem imaginava que um dia eu não mais brincaria com tanta ingenuidade. Espero que eu ainda me lembre das minhas tantas birras e manhas por coisas pequenas e gostosas de lembrar-se de forma tão viva, e interna. Nessas fotografias já desgastadas eu quero sentir o cheiro da infância e o gosto de cada lembrança de quando eu era criança. Lembrar-me do primeiro dente caído, do primeiro amigo, do primeiro amor, da primeira briga, da primeira festa, e de todos os malditos primeiros que sempre nos marcam. Queria lembrar-me de tudo que passou. Ah, as coisas realmente passam, às vezes nós nem percebemos, mas mesmo assim elas passam. Aquilo tudo passou, e isso tudo continua passando. Eu passei. E passo mais e mais a cada momento. Passar assusta, permanecer também. E as fotografias permanecem vivas na minha memória. Eu sinto dentro do tempo o tempo todo que está dentro de mim. Maldito tempo. Antes ele não fosse assim tão traiçoeiro, assim tão passageiro. Antes ele fosse algo tão diferente do que é, que eu nem posso descrever. Descrever… Realmente eu jamais poderia descrever tudo isso que há dentro de mim. Tudo é tão meu que parece nem ao menos saber como sair de mim, está preso de dentro para dentro. É como se eu fosse tudo isso que eu guardo e que ninguém pode ver, é como se o que eu mostro fosse um feixe de mim que eu consegui soltar, mas que esse feixe já não é mais exatamente aquilo que era antes de soltar-se de mim. É como se eu não fosse o que sou porque tudo o que sou só eu sei ser, e só pra mim. Ah Sartre, minha náusea faz parar-me por aqui. Eu ainda estou cá, a olhar o horizonte sem fim. Eu queria que esse horizonte nunca mais se perdesse de mim. Agora quero lembrar-me de cada parte que eu vivi ao seu lado. Foi você, o primeiro a me dar as mãos e sentar-se ao meu lado naquela calçada preta e branca. Faz muito tempo, mas eu ainda sinto seu cheiro nessa frase, sinto seu corpo nessas palavras. Foi você que de repente, decidiu me ouvir falando de mim durante todos os dias na praça do parque, e eu aproveitei e falei muito, nunca mais parei de falar. Você me ouvia e olhava dentro dos meus olhos, vendo cada parte de mim em tudo que eu falava. Minha profundidade sendo exposta e ameaçada por todo aquele carinho seu que me assustava por ser tão doce. Nós ali, ainda nos bancos da escola, esperando o sinal tocar e anunciar a hora do recreio. E esse tempo já passou e isso realmente faz tempo. E a cada minuto isso se concretiza mais dentro de mim. É como se a ficha fosse caindo aos poucos. É como se dentro de mim eu soubesse que nada passou, mesmo por fora tendo passado. Mas eu queria que você ainda estivesse aqui, sentado do meu lado segurando a minhas mãos em alguma calçada preta e branca com sombra fresca. Eu queria que você ainda me escutasse falar de mim como um dia você escutou, eu queria saber falar tanto de mim pra alguém como só pra você eu falei. Sonho ainda com os filmes na sala de vídeo no colégio, onde você cochilava sempre, mas jamais soltava minha mão. Você não deve nem se lembrar disso, eu só sei que não te esquecerei. Só sei que todos os sorvetes de chiclete e os passeios no zoológico foram os dias que mais tem meu cheiro nessa lembrança. Os dias que mais tem seu cheiro na minha infância. Tudo era puro, belo, sincero. Parecia coisa de filme de sessão da tarde, talvez fosse. Algum filme que eu assisti em num domingo na casa da vovó logo depois de comer e tirar fotos toda suja e melecada. Ah, claro que logo depois de dar alguma birra por qualquer besteira só pra não parar de ser eu desde o inicio de mim. E depois de tudo, um cochilo. Cochilo que me fez sonhar e me imaginar num filme. Esse que eu acabei de contar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Pau nosso de cada dia


Aos vagabundos cafajestes

Que nos divertem majestosamente

Na madrugada eterna

Com o calor interno.

A todos os filhos da puta

Que com a indiferença fria

E morna

Nos aquecem como ninguém antes o fez.

Aos de pau grande

E disposição sagaz

Que fazem de nós as damas da noite

Com pernas abertas e peito bem fechado

Aqueles que nos fazem esquecer a dor

E sentir somente o prazer.

Prazer doce e perigoso

Suspiros frios, calafrio.

Vamos brindar

Uma, duas, três vezes

E mais algumas, tantas.

Acende o cigarro, descansa do gozo.

Abre a janela na manha seguinte.

A falta de memória, com requinte.

O uísque ainda nos copos espalhados

O silêncio permanece calado.

A sensação de satisfação:

Hipócrita, instantânea.

Não, o problema não foi seu pau, nem seu desempenho, querido.

O problema está comigo.

Eu exijo mais que isso.

Eu quero o prazer completo

Quero abrir o peito junto com as pernas

E te mostrar meu gosto de forma sincera.


Nota: A tão doce menina dos olhos depois do ultimo texto decidiu beber novamente a dose toda de uísque, acendeu o cigarro, deixou nele a marca de sua boca com batom cor de sangue e finalmente vomitou com alguma morbeza romântica essas palavras.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sobre o prazer


Agora eu vou falar da carne,

do desejo, do tesão, da fantasia

e de toda minha malícia.


Vou falar de cada amasso,

cada laço, cada mormaço,

nesse nosso embaraço.


Vou lembrar-me daquele arrepio,

daquele delírio,

mas principalmente daquele suspiro frio.


Demorar-me no que faz do silêncio algo que não é mudez.

Na qual os corpos são bem mais que a nudez.


Junto ao sexo e ao álcool, prazeres sagazes e ferozes,

cito também aqueles outros pequenos prazeres vagabundos,

que fazem dos poetas experimentadores do mundo.


Na queima de energias eterna,

a explosão interna,

que me enrosca a sua perna.


Depois do botequim,

eu me jogo em frente ao seu tamborim

e te devoro até o fim.


E tudo o que me resta

é seu toque e seu calor nesse fim de festa,

só, e somente isso me interessa.


No espelho do banheiro eu repito pra mim mesma:

nos dias em que a física sobrepõe-se a metafísica, é melhor deixar a alma em casa e sair com a roupa do corpo.

Nota: é que ela, a menina dos olhos sempre tão delicada e meiga, acordou hoje como uma puta amanhecida cheia de classe, sem nenhum traço doce.
Não demorou muito passou seu batom vermelho, bebeu a dose toda de uísque, e depois escreveu essa merda que vc leu!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Retalhos


Deixe-me aqui.

Sentada nessa praça onde não mais te vejo.

Com as lembranças mais doces ainda presentes.

Em meio a sua ausência fria.

-

Deixe-me assim.

Guardando ainda o cheiro do mar e o gosto do vento,

entre a sua cor e o seu jeito, com suas as carícias eternas.

Como aquela que coleciona retalhos de si.

-

Deixe-me agora.

Vomite para fora toda a sua dor,

rasgando as fotos e queimando o passado

Que ainda não passou.

-

Deixe-me aqui.

No mesmo banco de concreto

Que você esmurrou, mas não quebrou.

Com o mesmo carinho no sorriso que você provou.

-

Deixe-me assim.

Com a delicadeza de quem aprendeu muito, meu bem.

Entre os tapas mais belos, o degustar singelo,

que nos ensina a escolher dentre todos os retalhos, aquele com gosto de caramelo.

-

Deixe-me agora.

Leve consigo seu orgulho ferido.

Invente suas mentiras e se engane muito pra tentar me arrancar de você de uma só vez.

Só se lembre que eu guardo comigo os retalhos coloridos, e essa longa embriaguez.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Aquela que ninguém viu

Ela dança, se mexe.

Remexe a cintura.

Procura algum pedaço de si

Jogado na lama do chão.



Ela olha pra frente,

Vira de lado.

Pisca os olhos,

Tentando tirar o cisco que caiu no seu coração.



Ela mima, cativa

Sai distribuindo carinho

Tentando saber qual o caminho

Que a leva mais perto daquilo que a fez perder-se de si.



Ela brinca, exagera

Encara o mundo como criança

E se cansa dessa tola ignorância

Da forma mais sincera e bela.


Ela rodopia, se arrepia.

Procura em seus pensamentos

O sentido da correria do vento.

Vai-se indo pela rodovia.



Foi-se,

Perdeu-se.

Não se viu entrar nem sair de cena.

Ela é aquela que ninguém viu.


domingo, 14 de junho de 2009

A cor dentro do corpo


As cores mais quentes e mais atraentes.

Cada som tão carregado de si que carrega o mundo para dentro de mim.

O fluxo veloz e alheio que me transforma em espectador do mundo.

A atenção focada em tudo,

a cada parte da cidade.

O coração pulsando cada gota de mim de forma gritante para que

finalmente eu de fora me escute em silencio por dentro.

Pulsação em ritmo de samba-groove que acelera meu desejo de engolir o mundo.

Como a antena que capta cada mínimo sinal,

eu me sintonizo com a vida.

Sem entender a velocidade externa eu por dentro me apresso com minha

pressa em sentir tudo até o fim.

No desejo de ousar e experimentar ser-se como nunca se foi de um jeito ferozmente vivo.

Na ânsia pela emoção e por cada sensação que mesmo pequenas se tornam fortes e penetram dentro do vazio do coração.

É nesse ritmo da vida,

nesse embalo do mundo,

sentindo todos os sinais tão intensamente,

internamente.

Enxergando as cores com a alma é que eu começo a perder o controle de mim.

Como se não aceitasse deixar o mundo entrar pelos pulmões e me invadir assim.

Só eu tenho esse direito aqui.

Sim.

sábado, 6 de junho de 2009

Me sobra delicadeza


Você precisa mendigar algum pouco de amor pelas noites geladas ou em qualquer colo sozinho, para só então se amar, meu bem.

O meu jeito de lidar com o fim do amor é outro. Eu preservo um tanto seu em mim.

Sem esmola por ora.

Deixei o porta retrato ainda intacto.

Junto ao medo de mexer em algo que ao ser guardado no fundo de algum canto, ali permanecerá.

As trilhas diferentes revelam um silêncio interno perturbante, intrigante.

E a poesia não tem magia.

Só agonia.

Minhas escolhas, meu caminho…

Só meu.

Direção contrária ao seu.

Como a poetisa e o plebeu.

No meu ritmo o som é experimentalmente denso, intenso.

Nas madrugadas afora vejo que me sinto inteira dentro do eu que sou agora.

Perto de tudo que sou e daquilo que jamais fui antes de começar a ser.


Olho pro buraco que fizeste em mim.

Ainda assim, com delicadeza vejo a beleza de sentir a dor pura pelo valor da experiência.

Reverências!

Eu harmonizo as mais diversas energias que provocas em mim.

Exploro-as sem fim.

Tim-tim.

Nos eternos brindes noturnos sinto minha liberdade em um grito mudo de alívio.

Preço alto, noite longa.

O mundo volta a fazer barulho.

A novidade mostra o futuro.

Eu me orgulho.

Com orgulho duro no escuro.

Quanto ao escudo?

Digo que permaneces tatuado em mim.

Mas que eu bebi de ti todos os goles até o fim.

Segredo meu dentro do camarim.


Eu guardo a doçura de cada ternura.

Tentei de uma forma madura,

em meio aos seus gritos de loucura.

E fúria.

Na fortaleza de um, a fraqueza do outro.

Peço-te franqueza. Vou-me à francesa.

Me visto com o vestido de menina boneca desprotegida e ferida.

Guardo o espartilho e a cinta liga de mulher decidida.

Meu equilíbrio externo ofuscando a desordem interna.

Lobos se atacando em noite de lua cheia.

Por que tanta delicadeza pra falar de sentimento?

Pra que tanto sentimento sem delicadeza?

O furo que deixaste aqui dentro é do tamanho que necessitas para partir.

Vitória minha em sentir.

Ou não.

Vá então!


Do lado de fora tenho a certeza de dentro que eu beberia cada gota dessa dose amarga de novo.

Do mesmo jeito no meu peito.

Erraria cada erro que errei.

Deixaria doer toda a dor que dói.

Só para sentir outra vez tudo o que há dentro de mim como senti.

Fico aqui, sensível a cada sentimento meu.

Experimentei-me de todas as formas, por completo.

Confesso,

por vezes sem delicadeza alguma.

Eu me amassei nos seus rascunhos ainda dobrados.

Guardo comigo, com carinho cada palavra das cartas rasgadas.

Dispenso personificações.

E te expulso dos meus pulsos, por impulso.

Já que me sobra delicadeza.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Livre Sem Dosagem


Eu não posso falar da beleza com clareza.

Entre tudo de lindo experimentado e explorado houveram intensos e imensos sentimentos alcançados.

No contato com limites internos e externos desenhamos o mundo de forma menos imaginária.

Ou mais…

Ápice de emoções puras e escuras que revelam a fragilidade das coisas sólidas e leves.

Entre a linha tênue que separa a felicidade do medo, ousávamos o novo.

Em algum momento o sonhou de novidade mansa se foi.

Acabou-se.

Não se esperava ainda o pesadelo.

Nem tanto a realidade crua, nua.

Nos desenhos animados se definem melhor heróis e vilões.

As figuras reais se confundem, nisso me confundem.

Seres confusos como nós, hipócritas. Eu e você, meu bem.

Entre o controle e o desespero aquela cena fixa que ainda palpita fundo.

Mãos na cabeça,

olhares perdidos

e o peito pulsando a dor que doía tudo que enterramos dentro do vazio oco de nós.

Cérebro que vomitava os pensamentos de todos os seres perdidos.

Enquanto a pulsação acelerada mostrou a vivacidade daquela cidade.

E no desequilíbrio do corpo encontrou-se o peso da alma escondido na matéria grossa e frágil.

Não menos suja.

A pressão alta explodia em surto a magia e a beleza.

Agora sim, com clareza.

Clareza essa que só nós é que trouxemos

no bolso da frente do músculo estriado cardíaco.

Já é noite, estamos de volta na escuridão.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ouça o segredo

Como a dedicatória que pesa todo o peso dos ventos leves e perfumados de outono.
A ele como quem se faz herói pelo segundo inteiro em que os escudos estão no chão e a sinceridade agarrada à mão.
A ele pela coragem absoluta de revelar o segredo preso fielmente ao medo.
A ele pela desordem vivida e doída abafada no escuro do tormento em silêncio.
A ele principalmente pelo sentimento existente na conquista desse breve entendimento meu.
Entre as infindáveis dúvidas há a partilha de toda a pureza dessa verdade fingida.
Entre a confissão toda essa confusão com fusão de turbulências engasgadas.
Entre eu e ele esse registro eterno e externo de tão interno.
Entre ele e ela a dor engolida na angústia da duvida que bagunça o instante todo da paz desse abraço.
Entre o amor e a amizade um limite invisível e inexistente que faz dessas palavras jogadas uma mistura vaga.
Entre o dia e a noite os gritantes pensamentos mudos de delicadeza e desejo no ensejo do enleio.
Só e somente a ele…
Como quem merece como ninguém o tempo do desabado eternizado só para si.
Os ombros leves e a cabeça cheia como aquele que nasceu já dentro de si enroscado na razão que não descansa nem no momento do grito.
Grito calado que nunca não houve.
Ouça o segredo nesse silêncio.
Ouça o silencio desse segredo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Gota de ser


Como um ser profundo dotado das mais belas experiências internas.

Ser quer com a lente dos olhos capta as mais leves sensações externas que transbordam no espaço escondido onde as emoções não tem nome.

O coração que pulsa cada vivência como uma totalidade única e intensa.

A mente que tanto sente.

Mente que sente.

Ora, só assim verdadeiramente sente como mente.

Ser que tomou a essência do mundo em uma gota de vida e guardou para si todas as gotas do mundo na essência da vida.

No caminho dos olhos sempre abertos e alertos, certos de tudo que se possa experimentar na ousadia de cada dia.

Uma forma pura e assustadora de sentir infinitamente tudo de um jeito tocante e invasivo que espeta na carne frágil, mas nunca tira o prazer da experiência íntima e varolosa que faz parte do ser que não se pode deixar de ser.

A leveza de toda a grandeza está tatuada na sinapse inacabada.

Ainda clamando pela beleza de tudo que o sentimento esconde na vista grotesca.

No mundo onde sentir é exigência máxima para só então existir.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Onda de lá

Sobre a ilusão confusa, caduca e maluca do poder nosso de cada dia.
Foi naquele momento, depois de tudo de antes e antes de tudo de depois que ocorreu o ocorrido.
Fato marcante e também cortante. Não menos emocionante.
A fragilidade escondida na impotência diante do desespero daquela breve falta de poder sobre si que sentiu-se ali.
Vontade chorar. E em uma gota de lágrima conseguir expressar o medo.
Em um suspiro de silencio demonstrar a força que há dentro da renúncia.
O grito de liberdade de antes e a coragem excitante que enchia o peito já não mais existia aqui.
Tudo se calou quando o mundo não parou no momento exato da ordem expressa de pausa.
No mundo mudo da ausência de poder nasceu a perda do controle necessária para o sufoco.
Susto e surto. Depois toda a beleza de sentimentos a flor da pele que não puderam se calar nem mesmo com a falta de voz, falta de força.
É esse instante que eu quero registrar e assim o faço.
Explosão de mim no mundo, explosão do mundo em mim numa bagunça assustadora e dolorida onde a agitação não conseguiu abafar a emoção encantada que retrata vínculos invisíveis, mas perceptíveis.
Agora já de olhos abertos eu peço uma faixa grossa, macia e escura. Eu não quero enxergar, só sentir.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Hoje: sem anti-depressivo


Eu procuro algo prático e esteticamente estratégico para falar do sentimento enérgico e não menos elétrico e histérico que carrego comigo.

Procuro algo que me desequilibre e que nesse deslize eu eternize a minha vertigem.

Que no compasso desse inchaço, cansaço… desse mormaço já escasso no fim do laço entre o maço, que nenhuma fumaça abafe isso que extravaza entre as palavras.

Primeiro combustível, depois fogo. Hoje eu quero que queime, arda a dor estraçalhada, esmiuçada, estragada, extraviada, rasgada.

Deixe que invada.

Pegue a faca e agora cutuque, primeiro de leve depois com toda a força possível, passível. Faça estrago, buraco.

Quero que sangre o sangue talhado, o coágulo, o nódulo e o resto de mim.

Quero vomitar o cisto. Jogar para fora o câncer. Tossir tudo que engasga. Gritar tudo o que abafa. Transpirar o que absorvo.

Desse jeito cortante, marcante, macabro. Pacato.

Deixe corroer como ácido em carne viva.

Agora já mais leve, mais limpa.

Sei e posso dizer então que sinto.

Tudo isso porque ontem eu acordei oca e vazia de mim, como em dias normais.

A partir de hoje é assim.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Mais que dois


Por simpatia ele me espia.

Pela vontade há liberdade.

Com manha ele me ganha.

Com vinho tanto carinho.

Por desejo o ensejo.

Pela atração grande emoção.

Com medo ela vai cedo.

Com o vão no coração.

Pelo charme arraigado a carne.

A carícia e a malícia.

Sobra o encanto que faz do pouco um tanto.

Pelo afeto que me afeta.

Pela denúncia há renúncia.

Com o frio desse arrepio.

À margem sem coragem.

Por agora devo ir embora.

Pela pele nada repele.

Ora ainda, ele namora.

Com ensaio aos poucos eu saio.

A rima tenta e com isso inventa,

a ousadia da poesia

o sentimento desse momento.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

À ela


Esconderijo secreto e intocável.

Desconfiança eterna, interna.

Superficialidade exemplar de tão ensaiada.

Medo. Só o medo.

Faz-se extremamente necessário falar do medo.

Sem citá-lo a fundo, até porque não sabemos nada a fundo sobre ela.

O medo de sentir. Medo de explorar-se.

Aquele medo de sentir a dor que ela guardou no fundo de algum lugar secreto que se secreta aos poucos.

Tudo guardado e doído dentro de uma bela aparência em equilíbrio.

O esconderijo é profundo, tanto que talvez seja perdido, onde nem se pode alcançá-lo.

Falta mesmo a coragem de tentar encontrá-lo.

Perder-se daquilo que dói é mais fácil que mexer com a dor.

Ser gente exige algo que ela nunca ousou experimentar. Sentir não devia ser tarefa para os fortes.

Cutucar o lado dolorido e escondido é perder o escudo blindado e sair da casca.

Casca fina e grossa que já faz parte do couro.

Nem se sabe se a casca é toda ela, ou se a casca é o que a esconde dela.


Nada se sabe sobre ela.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O eu não meu


Vou lhe dizer quem sou para que você possa se afastar antes de entrar em contato com algo repulsivo e ao mesmo tempo envolvente. Tenho as melhores qualidades que até o pior ser humano carrega consigo. A racionalidade que me guia e me obriga cruelmente a seguir sempre junto dela faz de mim um ser paciente que necessita de cuidados especiais como grande parte dos pacientes. Creio que eu saberia exatamente o que sou, não fossem essas infindáveis e perturbadoras dúvidas que invadem a exatidão definitiva que eu não posso ter de mim. Quanto aos sentimentos, sinto muito. Tanto que às vezes me deparo com minha consciência invadindo meus sentimentos e indiscretamente forçando-me então a sentir até mesmo o que penso. Necessito pensar mais e mais a cada instante. Mergulho e afogo-me nos intermináveis pensamentos que fazem da vida essa incerteza tão certa que só nos resta pensar. Sou tudo o que vejo e que absorvo do mundo. Sou cega de mim e pouco absolvida também. Egoísta e prepotente como a maioria dos seres perfeitos. Incrivelmente crítica e segura como os melhores hóspedes das clínicas psiquiátricas invejariam. Minha completa sanidade jamais foi questionada, apesar de bastante testada. O equilíbrio que carrego comigo é sempre guiado pela justiça que eu mesma fiz para me julgar condenando como réu o conteúdo indecente interno meu. Seguir esses passos é mais difícil até que aprender andar sozinho. Além dos sonhos e desejos sou também as regras e repressões que expulso a ferro e fogo de mim, mas tantas delas permanecem intactas e escondidas como se eu mesma as protegesse de mim e não as deixasse partir. Esse longo texto confuso que não sabe o que diz ao tentar dizer tanto, só serve para provar que eu mesma não sei quem sou nem onde desejo chegar, apesar de saber ser como sou como ninguém mais sabe e de saber o caminho de mim como só eu sei.
Related Posts with Thumbnails