Menina Dos Olhos
"Eu bem sabia que a nossa visão é um ato poético do olhar." Manoel de Barros
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Simetria imperfeita
O que desabrochou da carne
mas encontrou seu refúgio na alma
e firmou-se não pelo belo
mas pelo que se inaugura da beleza
onde o silêncio revela profundezas incríveis
e suspiros cardíacos intensos.
Fora não pela formosura dos lábios
mas pela doçura do sorriso,
não pela elegância do porte
mas pelo carinho do toque,
não pela face perfeitamente simétrica
mas pela firmeza do olhar,
não pela liquidez da materialidade
mas pelo brio do caráter,
e por tudo aquilo que se esconde da superfície
e só se descobre na antiguidade de um abraço manso.
Fora tanto
que os olhos molhados de admiração e carinho
não deixam disfarçar a nostalgia eterna de cada lembrança.
Fora profundo
como cada afeto seu
costurado e colado em minhas vísceras
pra fazer transbordar em minhas veias
você que me faz tão bem.
...
O que desabrochou da alma
e encantou as mais ocultas marcas da carne
e firmou-se não só pelo que se vê
mas pelo que se consagra dos sentimentos invisíveis
onde as palavras não podem revelar o tamanho do que se sente
nem a profundidade das respirações entrelaçadas.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Primeira palavra
Não
cabe em lugar algum
o fardo
cascudo que o laço criou.
Antes
era a ausência
depois
foi a presença
hoje
é o lugar cativo
onde
presença e ausência
se
encontram
se
misturam
e
se destroem.
A primeira
palavra pronunciada na vida
se
tatuou como a mais profunda ferida.
Núcleo
estilhaçado
de
tudo aquilo que não se esconde
e não
se toca
mas
se dilacera até o ventre.
O silêncio
construiu o tamanho da dor
o nó
na garganta construiu o sabor do amargor
por
ora sabor de presença da ausência,
por
ora sabor de ausência da presença.
Poderia
se chamar vínculo mortal
mas
na verdade é só o limite do silêncio.
Estandarte
sangrento
que
carrega consigo
as
marcas de uma vida
onde
abandono e carinho
tinham
o mesmo nome.
Quase
não posso escrever essas lágrimas
quase
não posso chorar essas palavras.
Traduzir
a dor em versos
não
faz que voz alcance os ouvidos mais desejados
e
os colos mais cotados.
Ao
contrário,
o que
a falta faz
mais
uma vez se repete
se
instaura
se
inaugura na eternidade
e
se expande para os mais diversos laços.
Fica
aqui a fenda da falta:
falta
do seio da vida
e
as tantas outras faltas
que
a vida tratou de ordenar.
Quase
já não posso caber aqui,
onde
o limite do silêncio
berrou.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Eu e o vento
As
nuvens dançam aos meus pés
e o
teto do mundo alcança a ponta dos meus dedos.
No
jardim dos encontros
eu
desenho um abrigo
faço
dele meu esconderijo.
É como
se das flores
restassem
a cor
e
das árvores
a
sombra.
É como
se de tudo
sobrasse aquilo
que
nunca faltou.
Ficou
no jardim
o encontro,
o
abrigo,
as
nuvens
e
o teto do mundo.
Ficou
em mim o meu desenho.
E
com a ponta dos meus dedos
eu
danço na cor da sombra da flor da árvore.
sábado, 5 de novembro de 2011
Onde os raios se transformam em sonhos
Manso e único
era o sabor daquele tormento colorido
que coagula o
sangue mais íntimo
e estanca no
peito as reações pulsantes
O que desabrocha
em mim tem uma outra cor
uma furta cor
inocente
carimbada de alegria
e dor.
Devagar brotam
sonhos compartilhados
e futuros
tricotados juntos para além do tempo.
Devagar os
cachecóis aquecem os pescoços
e modificam cada
pulsação absorvida.
É como um grito
que desampara e ressignifica o som do poema
como se as
palavras acordassem a poesia
criando vida e
sonho nas pétalas dos versos.
E a vida se
ocupa em surpreender os sentimentos
criando um
desencontro fascinante
entre tudo
aquilo que existe e tudo aquilo que se cria
onde os raios se
transformam em sonhos.
sábado, 3 de setembro de 2011
Alegoria
É como um tapa
na cara
manso e breve,
mas que deixa a sua
marca
estampada na
alegoria principal.
É o avesso do
sonho
o inverso dos
planos
é quase feito alguma
coisa enorme
que não se
parece a nada.
É o eco de uma
voz solitária
a cantar seu
pedido de colo
em momentos
intervalados e constantes.
É o perdão nunca
dado
e a mágoa nunca
esquecida
que se misturam
num gole inteiro
da dose mais
forte
de amnésia
forçada goela abaixo.
É só aquele
toque
que quer ser ouvido
como uma música interrompida
momentos à
frente.
Tem um gostinho
de abandono
essa melodia
estapeada.
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