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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Simetria imperfeita


O que desabrochou da carne
mas encontrou seu refúgio na alma
e firmou-se não pelo belo
mas pelo que se inaugura da beleza
onde o silêncio revela profundezas incríveis
e suspiros cardíacos intensos.

Fora não pela formosura dos lábios
mas pela doçura do sorriso,
não pela elegância do porte
mas pelo carinho do toque,
não pela face perfeitamente simétrica
mas pela firmeza do olhar,
não pela liquidez da materialidade
mas pelo brio do caráter,
e por tudo aquilo que se esconde da superfície
e só se descobre na antiguidade de um abraço manso.

Fora tanto
que os olhos molhados de admiração e carinho
não deixam disfarçar a nostalgia eterna de cada lembrança.

Fora profundo
como cada afeto seu
costurado e colado em minhas vísceras
pra fazer transbordar em minhas veias
você que me faz tão bem.


...
O que desabrochou da alma
e encantou as mais ocultas marcas da carne
e firmou-se não só pelo que se vê
mas pelo que se consagra dos sentimentos invisíveis
onde as palavras não podem revelar o tamanho do que se sente
nem a profundidade das respirações entrelaçadas.




quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Primeira palavra



Não cabe em lugar algum
o fardo cascudo que o laço criou.

Antes era a ausência
depois foi a presença
hoje é o lugar cativo
onde presença e ausência
se encontram
se misturam
e se destroem.

A primeira palavra pronunciada na vida
se tatuou como a mais profunda ferida.

Núcleo estilhaçado
de tudo aquilo que não se esconde
e não se toca
mas se dilacera até o ventre.

O silêncio construiu o tamanho da dor
o nó na garganta construiu o sabor do amargor
por ora sabor de presença da ausência,
por ora sabor de ausência da presença.

Poderia se chamar vínculo mortal
mas na verdade é só o limite do silêncio.

Estandarte sangrento
que carrega consigo
as marcas de uma vida
onde abandono e carinho
tinham o mesmo nome.

Quase não posso escrever essas lágrimas
quase não posso chorar essas palavras.

Traduzir a dor em versos
não faz que voz alcance os ouvidos mais desejados
e os colos mais cotados.

Ao contrário,
o que a falta faz
mais uma vez se repete
se instaura
se inaugura na eternidade
e se expande para os mais diversos laços.

Fica aqui a fenda da falta:
falta do seio da vida
e as tantas outras faltas
que a vida tratou de ordenar.

Quase já não posso caber aqui,
onde o limite do silêncio
berrou.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Eu e o vento




As nuvens dançam aos meus pés
e o teto do mundo alcança a ponta dos meus dedos.

No jardim dos encontros
eu desenho um abrigo
faço dele meu esconderijo.

É como se das flores
restassem a cor
e das árvores
a sombra.

É como se de tudo
sobrasse aquilo
que nunca faltou.

Ficou no jardim
o encontro,
o abrigo,
as nuvens
e o teto do mundo.

Ficou em mim o meu desenho.

E com a ponta dos meus dedos
eu danço na cor da sombra da flor da árvore.



sábado, 5 de novembro de 2011

Onde os raios se transformam em sonhos




Manso e único era o sabor daquele tormento colorido
que coagula o sangue mais íntimo
e estanca no peito as reações pulsantes

O que desabrocha em mim tem uma outra cor
uma furta cor inocente
carimbada de alegria e dor.

Devagar brotam sonhos compartilhados
e futuros tricotados juntos para além do tempo.

Devagar os cachecóis aquecem os pescoços
e modificam cada pulsação absorvida.

É como um grito que desampara e ressignifica o som do poema
como se as palavras acordassem a poesia
criando vida e sonho nas pétalas dos versos.

E a vida se ocupa em surpreender os sentimentos
criando um desencontro fascinante
entre tudo aquilo que existe e tudo aquilo que se cria
onde os raios se transformam em sonhos.



sábado, 3 de setembro de 2011

Alegoria




É como um tapa na cara
manso e breve,
mas que deixa a sua marca
estampada na alegoria principal.

É o avesso do sonho
o inverso dos planos
é quase feito alguma coisa enorme
que não se parece a nada.

É o eco de uma voz solitária
a cantar seu pedido de colo
em momentos intervalados e constantes.

É o perdão nunca dado
e a mágoa nunca esquecida
que se misturam num gole inteiro
da dose mais forte
de amnésia forçada goela abaixo.

É só aquele toque
que quer ser ouvido como uma música interrompida
momentos à frente.

Tem um gostinho de abandono
essa melodia estapeada.


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