
No meio dos rios desse inferno
dessa poeira ácida, dessa sujeira ártica,
nesse espasmo flácido se colore o amargo púrpura
que recheia esse bordel virulento, cheio de ratos mortos.
Penetro o balcão pra encontrar qualquer bebida acre
pra escorrer o doce que se solta desse líquido forte
E de súbito vejo dançar na luz suja a frígida puta sobre um palco mal arranjado numa falsa tentativa de sedução
Não existe espaço para o lirismo nesse lugar
nem mesmo para o lirismo bêbado barato e cheio de ratos a mordiscar os lados
Só existe espaço para a mulher murcha, quase nua no palco de caibros frágeis, tão igual à sua platéia de animais gordos, todos há muito tempo broxados, salivando por qualquer sombra de vigor sem nem saber
rondando feito lobos a presa que mais do que tudo é carne
carne que nem triste é porque já não sangra
Por trás da pele transparente se vê os ossos, matéria de ferro, aço, parede nua, concreto, chão de terra batida,
esquece o fogo, a carne nunca se pareceu tanto com o metal frio da máquina.
E eu a observar do balcão a mais triste cena de todos os tempos, a ceia dos que não têm fome e nem sequer sabem disso
Eu mergulho, só mais um porre qualquer
Mas espera!
Ainda tem sombra de luxúria entre esse tantos trapos
Um pedaço de seda desgastado e ainda brilhante amarrado no tornozelo esquerdo e que ninguém presta atenção
Ainda existe um ritmo fraco de música, um brilho apagado, nesse inverno de vermes paralíticos e mudos, ainda existe sangue a ser bebido
E a puta amarga se senta ao final do ato, na beira do palco numa insólita espera por qualquer coisa dura o bastante que a faça sangrar de novo.
Por Maria Cecìlia Lara