
Ela olhava aquela cidade como quem também não era dali
as luzes contra os olhos
os olhos saboreando o medo e a angústia aprisionada.
Entre laços e beijos
havia mistérios quase inexplorados.
Eu me apaixonei não por ela,
mas por tudo que se escondia atrás dela.
A dama da noite, sem classe;
A musa de marfim, com uma pitada salgada.
Encantadora e quase perigosa.
Lacrimejava pelos cantos como mulher,
abria o peito e se entregava com jeito
feito atriz encarnando personagem que já existia dentro de si.
Ela jogava cartas como quem joga só para ganhar
e ela ganhava como quem sabe a hora da vitoria
nem antes, nem depois
o tempo certo, sempre cronometrado, sempre certo.
Pele doce, olhar gentil
a moça que sabia como ser tudo que era de um jeito só dela.
Colocava a colcha sobre seu rosto
tentando guardar dentro da colcha suas dores
ela era doída, bastante doída aliás.
Seu movimento era todo perfeito
usava o charme para tapar seu medo
ela sabia como ninguém
guardar-se dentro de si.
Ficava por ali numa paz estonteante
que só ela sabia alcançar
seu tormento cheirava segredo
tinha a cor de todo amor
despedaçado e moído
com o brilho certo de carinho cansado.
Menina, minha menina
de alguma forma eu preciso deixar escapar
sua confusão e seu medo me afastam
mas só seu olhar sabe como me atrair assim
não me declaro
agora eu me calo
e digo somente:
que eu sempre te amei.
Basílio Ferreira Filho
(uma face máscula de Fernanda Tavares)